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Só quem compreende o valor do próprio corpo como templo de Deus sentirá o peso real do que significa maltratá-lo pela gula, por isto iniciamos esta postagem sobre a gula lembrando a importância do cuidado com o próprio corpo.
Amar a si mesmo é um dever fundamentado no mandamento de Cristo: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo". O amor-próprio reto é o desejo sincero de querer o próprio bem. O nosso maior bem é a santidade. Quem se ama busca viver na graça, crescer em virtudes e cuidar do corpo recebido. Tratar-se com zelo é honrar o Criador.
Os vícios caminham juntos e formam uma rede de conveniência. A preguiça e o comodismo são cúmplices da gula. A falta de disposição para preparar o alimento necessário empurra a pessoa para opções de má qualidade. O comodismo privilegia o prazer imediato em vez do esforço da temperança.
O corpo e a mente ordenados permitem que sejamos um presente para os outros. Amar-se de verdade é reconhecer a necessidade de estar inteiro para servir a Deus com vigor. O zelo pela própria vida é um ato de gratidão e um exercício de caridade. Devemos oferecer ao próximo o melhor de nós mesmos.
É exatamente o apetite desordenado — que o amor-próprio reto deveria frear — que a tradição cristã chama de gula.
A gula é classificada como um vício capital, o que significa que ela não é apenas um erro isolado, mas uma inclinação desordenada que gera outros pecados e vícios.
Para uma definição robusta de gula, podemos dividir o conceito nos seguintes pontos:
A gula consiste no apetite desordenado no comer e no beber. É importante notar que o prazer sentido ao comer não é uma imperfeição em si, pois foi criado por Deus; o pecado surge quando essa busca pelo prazer foge do controle da razão e se torna um fim em si mesma, em vez de servir ao sustento da vida.
Tanto o descontrole puramente voluntário quanto a compulsão alimentar emocional exigem um despertar da consciência. Muitas vezes, a busca compulsiva pelo alimento — que pode levar à obesidade — é uma resposta adaptativa a dores emocionais não processadas, com raízes fincadas em ambientes de controle, humilhação crônica ou vínculos afetivos rompidos. O corpo aprende a calar o que a mente não consegue suportar, transformando a comida no anestésico mais acessível.
Nesse sentido, Bessel van der Kolk documenta como o trauma se instala no sistema nervoso, gerando comportamentos que parecem escapar ao domínio da vontade consciente. Nesses cenários, a obesidade ou o excesso surgem como sintomas de um abismo mais profundo.
Contudo, reconhecer essa origem emocional não suspende a necessidade do exame de consciência: antes, convida-nos a discernir se somos apenas negligentes com o apetite ou se estamos tentando saciar, em vão, uma emoção mal resolvida que a comida jamais poderá curar. Ambos os casos exigem exame de consciência e ação para sanar o problema, seja ele o descontrole por falta de temperança, seja uma compensação por questões não conscientes.
Nada de julgamentos apressados: quem come para silenciar uma dor que não sabe nomear precisa, antes de tudo, ser ajudado a dar nome a ela — um processo que, em essência, é o que um exame de consciência bem conduzido sempre se propôs a realizar.
Seguindo o ensinamento de São Gregório Magno e Santo Tomás de Aquino, a gula manifesta-se de cinco formas:
Por ser um vício capital, a gula entorpece a alma e gera outros males, conhecidos como suas "filhas":
A luta contra a gula exige o cultivo da virtude da temperança, que modera os apetites sensíveis pela razão. As fontes recomendam a mortificação do paladar, a prática do jejum e a sobriedade, utilizando os bens materiais segundo a necessidade e o dever, e não apenas pelo impulso do prazer. Um bom exame de consciência vai ajudar a saber se é necessario buscar ajuda de um psicanalista, ou psicólogo ou psiquiatra para saber reconhecer as causas do descontrole alimentar. Fale com seu diretor espiritual. Não deixe de procurar a ajuda especializada que precisa.
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